A Guardiã
A autoridade de uma mulher em travessia
A Guardiã é aquela que sustenta o limiar, reconhece o tempo da travessia e acompanha, com verdade, presença e discernimento, mulheres chamadas a retornar a si.
PALAVRA DA GUARDIÃ
A Escola Solar da Alma nasce de um caminho vivido.
Ela não nasce de uma ideia pronta, nem de um projeto construído apenas a partir de conceitos. Nasce de uma travessia longa, profunda e silenciosa, em que fui sendo chamada a reconhecer minhas sombras, meus complexos, meus antigos padrões de vínculo e as formas pelas quais, durante muitos anos, ofereci a mim mesma em sacrifício para preservar laços, apaziguar tensões e sustentar imagens que já não correspondiam à minha verdade.
Durante muito tempo, houve em mim uma forma de amar que parecia virtude.
Era a tendência de reparar, acolher, compreender além da medida e, muitas vezes, descer de mim mesma para que o outro não precisasse descer de sua ferida, de seu orgulho ou da imagem que sustentava.
Por fora, isso podia parecer apenas cuidado.
Por dentro, muitas vezes havia culpa, medo da ruptura e a antiga necessidade de manter o vínculo mesmo às custas da minha inteireza.
Reconhecer isso foi parte essencial da minha iniciação.
Na linguagem de Jung, posso dizer que, em algum momento, esse complexo me tomou.
Ele passou a organizar meus afetos, meus reflexos e minhas respostas. E o que parecia bondade muitas vezes escondia autoabandono. O que parecia generosidade muitas vezes trazia consigo o medo de frustrar, de perder, de ser vista como a que feriu.
Foi preciso ver.
Foi preciso nomear.
Foi preciso atravessar.
Desde então, venho vivendo um processo profundo de desidentificação com essa antiga mulher — a mãe boa, salvadora, conciliadora — e de nascimento de outra postura: mais lúcida, mais íntegra e mais fiel à verdade da alma.
Essa travessia não é teórica para mim.
Ela é vivida.
É cotidiana.
Exige vigilância, consciência e a coragem de não responder automaticamente ao velho impulso de apaziguar, adoçar, reparar e me inclinar diante da ferida do outro.
O que está morrendo em mim não é o amor.
É a forma antiga de amar me perdendo.
E o que está nascendo não é dureza.
É uma mulher mais inteira, que começa a compreender que não precisa se sacrificar para ser boa, nem se diminuir para preservar vínculos, nem se ajoelhar psiquicamente diante do orgulho ferido de ninguém.
Se há uma imagem que acompanhou minha alma por muitos anos, antes mesmo de eu saber traduzi-la em palavras, foi esta: chamar o barqueiro e atravessar as brumas.
Quantas vezes, em diferentes momentos da vida, esse foi meu desejo mais íntimo: chamar o barqueiro, atravessar as névoas, descer, submergir e encontrar uma passagem para além da dor de existir.
Quando li As Brumas de Avalon na adolescência, meu fascínio por Morgana não era casual. Havia nela algo que minha alma já conhecia: a mulher do limiar, a guardiã das névoas, aquela que conhece o lago, a travessia e o mistério.
Por muito tempo, essa imagem viveu em mim como encantamento, identificação profunda e busca silenciosa. Hoje compreendo que ela expressava um fio secreto da minha própria vocação.
Meu caminho não é o de salvar mulheres da dor.
É o de guardar um campo de travessia.
Um campo onde uma mulher possa reconhecer que chegou à margem.
Onde possa escutar o chamado.
Onde possa reunir coragem para chamar o barqueiro.
Onde possa atravessar as brumas, sustentar a noite da alma, descer às regiões profundas do ser e retornar devolvida a si — mais inteira, mais lúcida, mais próxima de sua força, de sua dignidade e de sua verdade essencial.
É desta experiência que nasce meu lugar como guardiã do campo na Escola Solar da Alma.
Não ocupo esse lugar porque me considero pronta ou acima de outras mulheres.
Ocupo-o porque estou comprometida com a travessia real, com a espiritualidade encarnada e com o fogo da consciência como via de transformação.
A autoridade que sustento aqui não vem da superioridade, nem do personagem espiritual, nem da promessa de perfeição.
Ela nasce da experiência de quem vem atravessando.
Da mulher que conheceu as brumas por dentro.
Da mulher que precisou descer.
Da mulher que vem retornando, aos poucos, mais inteira a si mesma.
A Escola Solar da Alma é sustentada, em meu campo, por uma arquitetura simbólica sagrada.
Ísis funda e reúne os fragmentos.
Rainha de Sabah constrói e dá forma à obra.
Miriam Arcturiana move, impulsiona e faz o campo viver.
E no eixo da travessia, reconheço também a presença de:
Morgana, guardiã das brumas e do limiar, aquela que conduz à margem e à confiança na travessia.
Hécate, guardiã da encruzilhada e da noite, aquela que acompanha o escuro, protege as passagens e sustenta o mistério.
Perséfone, senhora da descida e do retorno, aquela que ensina que há travessias que não são queda, mas iniciação, e que certas inteirezas só nascem depois da volta.
Essas imagens não são, para mim, meros símbolos decorativos.
Elas expressam uma verdade de caminho. Uma inteligência mítica e espiritual que me acompanha, me orienta e dá contorno à obra que venho sendo chamada a servir.
Às mulheres que chegam à Escola Solar da Alma — para formações, percursos, rodas, cursos, vivências e experiências de aprofundamento — ofereço a autoridade possível e legítima de uma mulher em travessia.
Uma mulher que não fala de fora do caminho, mas de dentro dele.
Uma mulher que não promete atalhos, nem salvação mágica, nem perfeição espiritual.
Mas que pode sustentar presença, rito, profundidade e direção.
Aqui, o convite não é ao espetáculo espiritual.
É à presença.
Não é à inflação da imagem.
É à encarnação da verdade.
Não é à fuga da sombra.
É à integração da alma.
Se hoje posso apontar uma direção, é porque também venho percorrendo esse caminho.
Se hoje posso guardar esse campo, é porque conheço o fogo da travessia.
E se hoje me coloco a serviço desta obra, é porque reconheço, com lucidez e reverência, que toda a minha vida também me preparou para esta tarefa.
Talvez esta seja, afinal, a obra da minha alma:
guardar um limiar, chamar mulheres à travessia e permanecer presente para o retorno.
Cristina Marques
Fundadora da Escola Solar da Alma
Analista Junguiana e Guardiã da Tríade Sagrada